"A tarde cai e é tão linda, embora a paisagem em minha volta permaneça a mesma, sem atrativos que se possa chamar de especiais. Mas quando digo e escrevo que a tarde está linda não se trata somente de uma prosaica figura de retórica. A verdade é que é assim que meus limitadíssimos sentidos a percebem em meio à confusão geral do mundo. Parem, por um breve e rapidíssimo instante, tudo o que estão fazendo agora, livrem-se da pressa que os move, ergam a cabeça e olhem o céu. Vejam como ele está vestido de um azul claro, límpido, brilhante como um jeans recém-lavado. Depois, podem retomar as tarefas habituais do dia-a-dia. Não, eu não estou ficando louco. Estou tomado por uma tamanha lucidez que chego a me assustar com isso. A tarde cai e é tão linda, repito. Basta olhar em torno para ver que não estou mentindo.
Hoje decidi esquecer todas as comezinhas preocupações que me afligem. Portanto, não escreverei uma linha sequer sobre acontecimentos. Já conversei com as volúveis musas de plantão e entramos num acordo. Elas podem abandonar o ninho dos meus pensamentos e tirar o que resta do dia de folga. Que vão procurar pouso em outros poetas mais carentes e precisados do que eu. Um passarinho minúsculo pousou no meu jardim, demorou pouco. Logo alçou vôo e o perdi de vista. Caminho lentamente ao redor da casa. Tento olhar todas as coisas que me rodeiam com a mais intensa ênfase possível para evitar que se tinjam com as cores da tristeza. Chega de empregar as palavras a serviço do tédio, do triste, do amargor, da desesperança. Com palavras não se brinca de bandido e mocinho. Algumas têm espírito carnavalesco, mas nem todas.
Quase não percebi, porém já se iniciou o sol-pôr, desvestindo a noite de seus sombrios cueiros. E eu deixo que o lusco-fusco se abata sobre mim feito gotas de sereno. Mesmo em sua decadência, a tarde continua linda no que agora lhe resta de beleza. Pena que já não consigo ver o que me cerca com perfeita nitidez. Acesas as luzes da casa. Os postes da rua também rebrilham suas luzes mortiças. Aumenta veloz o fluxo dos carros. Ouço os passos e as vozes das pessoas na calçada em frente a meu portão. Um casal passa discutindo alto. O que haverá acontecido entre os dois? Talvez algum incidente grave. Quem sabe não brigam por qualquer besteira. Mais tarde, mais calmos, acabarão fazendo as pazes na cama. Ou dormirão de costas um pro outro. Amanhã, se arrependerão do tempo perdido.
A noite caiu. Lá do alto, uma estrelinha safada pisca para mim que nem pedisse uma serenata. Mas eu não sei mais fazer serenatas. Pisco pra ela num flerte a anos-luz de distância e sorrio agradecido. Leio um soneto que o poeta Luciano Mais me dedicou e que assim termina:”Meu coração, falcão visionário/sonhando em refazer o itinerário/da juventude, quer, anseia, arde/alça-se em voo sobre a paisagem linda/que a asa da memória traz-lhe ainda/mais cai ao chão e vê que é muito tarde!”. Fico comovido com os versos do amigo. Todavia, hoje não quero lembrar da juventude, remexer no fundo sem fundo dos tempos idos e vividos. Outro dia, talvez, quem sabe os desígnios das palavras que escrevo. Prefiro restar namorando a noite jovem e bela que nem a tarde que se foi, deixando-me um brilho solar que não se apagou ainda."
(Airton Monte - Tarde e Noite)


