terça-feira, 14 de junho de 2011

Um passarinho minúsculo pousou no meu jardim...





"A tarde cai e é tão linda, embora a paisagem em minha volta permaneça a mesma, sem atrativos que se possa chamar de especiais. Mas quando digo e escrevo que a tarde está linda não se trata somente de uma prosaica figura de retórica. A verdade é que é assim que meus limitadíssimos sentidos a percebem em meio à confusão geral do mundo. Parem, por um breve e rapidíssimo instante, tudo o que estão fazendo agora, livrem-se da pressa que os move, ergam a cabeça e olhem o céu. Vejam como ele está vestido de um azul claro, límpido, brilhante como um jeans recém-lavado. Depois, podem retomar as tarefas habituais do dia-a-dia. Não, eu não estou ficando louco. Estou tomado por uma tamanha lucidez que chego a me assustar com isso. A tarde cai e é tão linda, repito. Basta olhar em torno para ver que não estou mentindo.

Hoje decidi esquecer todas as comezinhas preocupações que me afligem. Portanto, não escreverei uma linha sequer sobre acontecimentos. Já conversei com as volúveis musas de plantão e entramos num acordo. Elas podem abandonar o ninho dos meus pensamentos e tirar o que resta do dia de folga. Que vão procurar pouso em outros poetas mais carentes e precisados do que eu. Um passarinho minúsculo pousou no meu jardim, demorou pouco. Logo alçou vôo e o perdi de vista. Caminho lentamente ao redor da casa. Tento olhar todas as coisas que me rodeiam com a mais intensa ênfase possível para evitar que se tinjam com as cores da tristeza. Chega de empregar as palavras a serviço do tédio, do triste, do amargor, da desesperança. Com palavras não se brinca de bandido e mocinho. Algumas têm espírito carnavalesco, mas nem todas.

Quase não percebi, porém já se iniciou o sol-pôr, desvestindo a noite de seus sombrios cueiros. E eu deixo que o lusco-fusco se abata sobre mim feito gotas de sereno. Mesmo em sua decadência, a tarde continua linda no que agora lhe resta de beleza. Pena que já não consigo ver o que me cerca com perfeita nitidez. Acesas as luzes da casa. Os postes da rua também rebrilham suas luzes mortiças. Aumenta veloz o fluxo dos carros. Ouço os passos e as vozes das pessoas na calçada em frente a meu portão. Um casal passa discutindo alto. O que haverá acontecido entre os dois? Talvez algum incidente grave. Quem sabe não brigam por qualquer besteira. Mais tarde, mais calmos, acabarão fazendo as pazes na cama. Ou dormirão de costas um pro outro. Amanhã, se arrependerão do tempo perdido.

A noite caiu. Lá do alto, uma estrelinha safada pisca para mim que nem pedisse uma serenata. Mas eu não sei mais fazer serenatas. Pisco pra ela num flerte a anos-luz de distância e sorrio agradecido. Leio um soneto que o poeta Luciano Mais me dedicou e que assim termina:”Meu coração, falcão visionário/sonhando em refazer o itinerário/da juventude, quer, anseia, arde/alça-se em voo sobre a paisagem linda/que a asa da memória traz-lhe ainda/mais cai ao chão e vê que é muito tarde!”. Fico comovido com os versos do amigo. Todavia, hoje não quero lembrar da juventude, remexer no fundo sem fundo dos tempos idos e vividos. Outro dia, talvez, quem sabe os desígnios das palavras que escrevo. Prefiro restar namorando a noite jovem e bela que nem a tarde que se foi, deixando-me um brilho solar que não se apagou ainda."


(Airton Monte - Tarde e Noite)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Abril Despedaçado.



TUM, TUM, TUM. TUM, TUM, TUM. O coração bate, o coração grita, o coração rasga, o coração explode. E ninguém vê e ninguém escuta. Só se vê o silêncio e só se escuta o sorriso ameno, um riso que não chega a alcançar os olhos, como que congelado no tempo. A dor das unhas vermelhas cravadas neste coração é escondida na gargalhada ocasional, nos beijos e mais beijos colocados em bocas sem amor, só loucura.
Atravessei Agosto rasgando-me e remendando-me sem comprimidos, sem sonhos, sem Nietzsche. A voz mansa fundia-se aos versos da canção afastando o sono, a sanidade: "Você está triste, minha menina?" Touch me, it's so easy to leave me all alone with my memory, of my days in the sun...
Setembro o trouxe envolvido em confetes e serpentinas de um Carnaval que não brinquei. Nas tão conhecidas gradações, o amor fraterno encontrou-se em uma paixão desmedida, desencontrada - ou seria o contrário? Em meses a fio, a brisa reconfortante transmutou-se em um vendaval confuso - nos perdemos por guardar sentimentos em gaiolas, ferindo os pássaros. Eu tenho asas, meu bem, como você pôde querer me aprisionar? Ontem, como que em risos refeitos, reconstruímos nossos castelos de areia, reconhecendo-nos como irmãos, como borboletas em vôo livre, grandioso - eis um não ilusório "final feliz".
As águas de Março, sussurradas por Tom, fecharam o verão - e, no coração, a promessa de vida chegou através de olhos doces, risos tímidos, palavras encantadoras, diferenças exorbitantes, distâncias desesperadoras. Entre cartas - de amor, quem o sabe? - eletrônicas, a voz de Gardel brada "
veinte años no es nada!" e eu te espero, te guardo, te busco e te encontro em mim, nos beijos talvez prometidos, talvez escondidos, talvez, talvez...
Hoje, contudo, é Abril - é Abril Despedaçado, Abril que escorre entre os dedos, Abril Areia, Abril Dor. Inesperado, você surge em uma noite com aroma de amêndoas - você, o "Moço que Se Protege com Sorrisos". Entre acordes de violinos e guitarras, encontro sua melancolia que se adequa à minha, em formas que se encontram e se negam. Musicada, nasce uma paixão inconfessa, incoerente, indesejada, que fez do meu coração a tua moradia. Com tua ortografia rebuscada e gargalhadas que, por vezes escondem quem tu és, você destrói minhas frágeis barreiras e se instala em mim, sem permissão. Como você me dói, moço que traz felicidade para tantos - como você me dói, como dói você não saber que me dói...
O que vem depois de Abril, meu Deus? Depois de Abril, o que nos aguarda? Entre tantas palavras confusas, resta-me apenas uma certeza: antes que Maio termine, quero de novo cantar. Quero a nuvem azul que se rasgou ontem em minha janela - antes que Maio termine, vou costurá-la ao Sol de Junho.

domingo, 10 de outubro de 2010

Precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade.

E a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme...
(Caio Fernando Abreu)





"Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando, ...faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver"

(Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

É preciso ter pulso, é preciso ter estômago.

"Meu erro foi acreditar que a vida poderia fornecer material para a minha literatura. Viver escrevendo. Não escrevi o que devia — este foi o meu erro.
(…) Escrever é renunciar — eu não sei renunciar. Gide disse que o diabo desta vida é que entre cem caminhos, temos de escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Pois bem: a literatura é como se você tivesse de renunciar a todos os cem…
(…) Parece preceito evangélico: aquele que perder sua vida, a salvará. Mas às avessas, procurar Deus onde ele não se encontra. A atividade literária é exatamente isso. Não se deter diante de nada, não respeitar nada. Valerá a pena? Os que têm nojo, fracassam. Que se faria do lixo, se ninguém quisesse ser lixeiro?
(…) A arte é uma maneira de ser dentro da vida. Há outras… É uma maneira de se vingar da vida. Assim como se você procurasse atingir o bem negativamente, esgotando todos os caminhos do mal. É preciso ter pulso, é preciso ter estômago."
(Fernando Sabino em "O Encontro Marcado")




Escrever me é penoso - é uma entrega incomensurável, na qual o escrito e o escritor se fundem e tornam-se um resultado censurável, exposto em estrofes contáveis e interpretações ilimitadas. E entregar-se dói. É cravar as unhas na carne e rasgar o verbo, arrancar de suspiros e silêncios as palavras, é abrir todas as portas e janelas de si, como que dizendo ''entre, entre sem bater!''. Então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes. Nesta Terra de Gigantes, encontro a força quando me desnudo em palavras. Escrever é a única ponte entre aqui dentro - este peça teatral onde sou protagonista e antogonista - e lá fora - o curta metragem com minha personagem real-ficcional. É preciso coragem para não continuar atrás do espelho, seguindo o amedrontado Coelho Branco.
Escrever é publicar no jornal a exata localização da fresta da fechadura que nos encerra em nosso corpo. É permitir a existência de uma platéia para as batalhas ensandecidas entre os demônios da mente. É sangrar quando viver dói feito uma bofetada - e, mesmo assim, não perder a ternura.
"Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras; e por tudo isso, ando cada vez mais só..."
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Diz-me, há solidão maior do que a de quem busca decodificar emoções e sintetizá-las em frases, versos e melodias?
Estou exausta. Não permitir transbordar a humanidade cálida que me preenche torna-me taciturna, irritável. Furiosamente, necessito escrever. Quero saciar minha sede de vida. Milhões de vezes, milhões de vezes.
Sou inflamável, mesmo sabendo quantas lágrimas aguardam os desassossegados. E as aceito - afinal, não foi chorando que nós chegamos ao mundo, Capitu? Cada vez que começo a rabiscar mais algumas palavras, repito comigo mesma: "Que seja doce. Que seja doce."




quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ao meu amado amigo Emanuel.




Emanuel, meu amado amigo. É tão difícil dizer o que não pode ser dito - é tão silencioso. O vocabulário torna-se algo medíocre quando sentimentos nobres superam letras, palavras, expressões – creio que até mesmo atos. Explicar os laços que nos unem parece absurdo, eu sei, mas tentei. Isto, porém, fica entre cartas que o tempo não alcançou ainda. Hoje só preciso agradecer ao Ser Supremo que rege este Universo a dádiva do teu nascimento, rapaz (: Mais do que isto, agradecer a indescritível oportunidade – a qual prendi com todas as minhas forças – de ser tua amiga.
Apesar de todos os clichês que envolvem esta frase, devo recitá-la: “tudo o que sou hoje tem um pouco de você.” Você é uma alma especial – daquelas que nos fazem chorar e rir sem motivos, que espalham felicidade e quietude aos corações. Apesar de hoje ser o teu aniversário, eu recebo presentes seus todos os dias, com a tua presença iluminada, riso franco e conselhos generosos. Pobre de quem não acredita em amizade.
Parabéns, meu amigo. Vou te contar um segredo, Emanuel: hoje eu acordei rezando baixinho e pedi para o Sol brilhar para você, para que o céu estivesse mais azul, para que todos os teus desejos se tornassem reais. E, egoisticamente, pedi para continuar sempre em tua vida. Com toda a minh’alma, muitas felicidades, meu bem. Não se esqueça jamais do quanto você é amado por esta criatura errante que cruzou teus caminhos, está bem? (: Com todo o afeto do mundo, beijos, beijos, beijos!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O show tem que continuar ♪

Ela vai voltar, vai chegar
E se demorar, I'll wait for you...
(Marisa Monte - Na Estrada)

Estou voltando para casa outra vez, meus queridos moradores :)
Apesar da longa ausência, "A máquina de escrever" me acompanhou por inúmeros caminhos. Agora sou eu quem deve acompanhá-la. Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem.
Muito obrigada pela presença constante. Aguardem só mais um pouco e, por favor, não me deixem - estou regressando com a mala repleta de histórias para contar, fotos, alegrias, angústias, medos e saudades.
Afetuosamente,
B.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça...

'Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia...'




Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
-… mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca.

(Caio Fernando Abreu. Quem diria que viver ia dar nisso?)