quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça...

'Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia...'




Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
-… mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca.

(Caio Fernando Abreu. Quem diria que viver ia dar nisso?)

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sábado, 28 de novembro de 2009

Do outro lado da tarde.




Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança - e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.
Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse - e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado - a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram essas duas coisas - a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento.
De repente, eu não consegui ir adiante. E precisava: sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Mas de repente não havia depois: eu estava parado à beira da janela enquanto lembranças obscuras começavam a se desenrolar. Era dessas lembranças que eu queria te dizer. Tentei organizá-las, imaginando que construindo uma organização conseguisse, de certa forma, amenizar o que acontecia, e que eu não sabia se terminaria amargamente - tentei organizá-las para evitar o amargo, digamos assim. Então tentei dar uma ordem cronológica aos fatos: primeiro, quando e como nos conhecemos - logo a seguir, a maneira como esse conhecimento se desenrolou até chegar no ponto em que eu queria, e que era o fim, embora até hoje eu me pergunte se foi realmente um fim. Mas não consegui. Não era possível organizar aqueles fatos, assim como não era possível evitar por mais tempo uma onda que crescia, barrando todos os outros gestos e todos os outros pensamentos.
Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada - sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo.
E era sempre de tarde quando nos encontrávamos. Até aquela vez que fomos ao parque de diversões, e também disso eu lembro difusamente. O pensamento só começa a tornar-se claro quando subimos na roda-gigante: desde a infância que não andávamos de roda-gigante. Tanto tempo, suponho, que chegamos a comprar pipocas ou coisas assim. Éramos só nós depois na roda gigante. Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você. Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço. Coisas assim.
Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas.Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava - ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insiginificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas - ou pelo menos as que tínhamos no momento.
Depois de não sei quanto tempo, as luzes se acenderam, a roda-gigante concluiu a volta e um homem abriu um portãozinho de ferro para que saíssemos. Lembro tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado.Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora.
Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.
(Caio Fernando Abreu, existe sempre uma coisa ausente...)

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim...

'Perfeição demais me agita os instintos.
Quem se diz muito perfeito,

Na certa encontrou um jeito insosso

Pra não ser de carne e osso,

Pra não ser carne e osso.'



Durante muito tempo, achei que minha "síndrome de perfeição" era incurável e intratável: "seja sempre a melhor aluna, a melhor filha, a melhor neta, a melhor sobrinha, a melhor irmã, a melhor amiga, a melhor ouvinte, a melhor conselheira, e nunca diga não, pois o 'sim' faz bem à saúde." Ou pior: eu acreditava que era extremamente importante ser assim. ''Vocês me amarão se eu for perfeita?"
Mas a vida gosta de brincar de cabra-cega conosco e, de porre em porre, vai nos desmentindo. De repente, você percebe como essa obsessão por perfeição é algo muito otário, uma necessidade de aceitação, quem sabe? Felizmente, sou demasiadamente humana, repleta de dúvidas (e dívidas...) e cometo erros. Engraçado como tudo acontece, não? Estou escrevendo e liguei o rádio e, neste exato momento, está tocando uma música assim "o que se leva da vida é a vida que se leva...". Fiquei tanto tempo sem escrever porque, no fundo, queria que quem chegasse ao blog só encontrasse relatos bons, dias incríveis. Não é fácil, mas acho que estou aprendendo que, se existe "perfeição", é porque existe erro. É uma espécie de coexistência. Talvez o que há de mais bonito no ser humano seja a capacidade de ser imperfeito - e este é o ciclo de vitórias e fracassos que nos atinge e transforma. Talvez a paixão seja conseqüência direta de nossas diferenças - afinal, apenas Narciso apaixonou-se por sua imagem. Quando você menos espera, está encantado não pela pessoa "certa" (aliás, quem inventou este conceito de "certo" e "errado"?!) ou primorosa, mas pelo jeito bagunçado do cabelo e pela mania, antes inaceitável, de deixar a toalha molhada em cima da cama. Nós criamos afeição uns pelos outros por causa das nossas diferenças, por causa da nossa aptidão de envolvimento, porque nos reconhecemos em trajetórias alheias, em sonhos quebrados e vitórias consolidadas. Consigo amar as pessoas porque não somos robôs - então, em algum momento, acontecerão coisas ruins, brigas, decepções, já que as mudanças trazem, sim, reações adversas, só que, como todos somos de carne e osso, agradeceremos pelo privilégio de conhecer o mal e o bem, de recomeçar através de escolhas.
Neste exato momento, bilhões de pessoas estão lidando, à sua maneira, com perguntas que ninguém, ninguém sabe responder. "Quem somos nós? Para que estamos aqui? Por quê?". Nunca recebi uma fórmula para uma vida feliz, uma receita contra todas as preocupações, não. Caso você a encontre, bom proveito! Só não se esqueça: não a mande para mim. Cada um sabe "a dor e a delícia" de descobrir seus caminhos.
Enfim, estou de volta! :) Algumas vezes, escreverei sobre as rosas que estou encontrando nas estradas, e outras vezes falaremos sobre os seus espinhos. De qualquer forma, estamos lidando com nossos questionamentos - afinal, você escreve para quê? - e será bom poder colocar algumas experiências em palavras.



(não conheço nenhum outro trabalho deste artista, mas esta música apareceu no momento ideal.)




P.S¹:
Homero, obrigada pela lembrança! Já estava na hora de tirar a poeira que se acumulou por aqui, não? :)

P.S²:
Muito obrigada pelos comentários, meus caros. Juro, agora matarei a saudade que estou dos blogs de vocês.




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terça-feira, 21 de julho de 2009

E ela vem, que vem pisando na barra da saia amarela...

'Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.'
(Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros)





Mais uma noite de insônia. Puxo minha cadeira para perto da janela, esticando os dedos para roubar uma estrela. É assim que tenho vivido: seguindo palavras, roubando estrelas - apenas as que nenhuma criança adotou, evidentemente - e buscando sorrisos. E, se algum desavisado me perguntar qual minha profissão, responderei, exultante: 'ladra profissional de sorrisos!'... Penso, consternada, que o Sono se escondeu debaixo da cama para que eu flertasse com a escuridão. Enquanto espero o Sol surgir no mar, descubro que não quero mais o poder de dividir 16 anos de Brasil, Argentina e Paraguai em setores, como alguém que separa os enlatados dos frios. Enquanto eu procuro (re)organizar o que alguém disse estar errado, o pôr-do-sol acaba e eu o perdi. Então me diz, Seu Moço, para que eu quero paz se que, para isto, eu tenho que criar planos enquanto a vida acontece lá fora? 'Eu não quero este poder, toma ele pra você. Eu só quero cantar, gozar e gastar da vida'. Não faz diferença se está tocando Samba, Tango ou Guarânia se só quero dançar, seja lá o que for.
Sabe de uma coisa, Seu Moço? Vou jogar estes paradigmas no meu baú, junto com meus desenhos, meus livrinhos de receita, umas flores secas, um espelho com continhas nas bordas, o batom vermelho e as palavras do Dalai Lama. Quem sabe não se transformará? Vou acordar cedo, colocar uma coroa de margaridas nos cabelos, ficar descalça e mandar beijos coloridos para quem passar pelo meu caminho hoje. Seu Moço, talvez amanhã de manhã eu tenha esquecido o meu pacto com a escuridão, mas as flores continuarão a nascer até nos dias em que nós não olharmos para o Sol. Sempre haverá Primavera...

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

I wanna Rock and Roll all night....

... And party everyday!



Eu só penso em Rock 'N' Roll. Eu só transo Rock 'N' Roll. Eu só respiro Rock 'N' Roll. A minha vida é o Rock 'N' Roll. ♪

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Desculpe, estou um pouco atrasada, mas espero que ainda dê tempo...

'Quando os astronautas foram a lua
Eu fugi com eles, me joguei por aí...
Fugindo de casa, do barulho da rua

Me esquecendo de tudo pra me divertir.

Que lugar mais silencioso

Eu poderia no universo encontrar
Que não fossem os desertos da lua
Pra recompor meu mundo bem devagar...'


Segunda-feira. O despertador toca, mais uma semana, mais 50 aulas, mais professores explicando o novo sistema do ENEM, mais redações, mais aulas até 22:00h, mais sábados e domingos na escola, mais cursos, mais História do Ceará, mais Física Moderna, mais estresse, mais remédios para dormir e para acordar, mais vestibular, vestibular, vestibular. Cada vez me sentindo mais 'O Vagabundo', a personagem de Chaplin em Tempos Modernos, lutando para sobreviver em um mundo assustadoramente hodierno. É clichê, bem o sei, justificar minha ausência (não só no blog...) pela incrível falta de tempo, mas não há outro motivo. Não, ninguém disse que seria fácil, não... Só que, às vezes, ainda fico assustada quando percebo o que nós estamos deixando o relógio nos tirar. Agora os almoços em família são agendados: 'você está livre na quarta? Não? Na sexta, então? Ah, mas eu só posso nestes dias! Na próxima semana nós nos encontramos às 13:00h, anota aí!'. Reunir os amigos? Para estudar, é claro! Até que, em uma quarta-feira, depois de 15 aulas, eu voltava para casa discutindo os efeitos da crise mundial na economia brasileira, percebi que alguma coisa estava muito, muito errada. 'Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida...', eu conseguia lembrar do que Caio escreveu... E então eu precisava sair, tirar umas férias na Lua, quem sabe? Ficar vivendo uma vida toda para dentro, não atender o telefone, não responder recados, ficar apenas lendo, escrevendo, ouvindo música e um tempo infindável sem pensar absolutamente nada. Assim o fiz, sem culpas, sem lamentações. E, se você quer mesmo saber, decidi me encontrar comigo mesma, para achar dentro de mim tudo aquilo que já foi meu e hoje me faz falta aqui fora. Cuidado comigo: um dia eu encontro.


'Mas daqui a um mês, quando você voltar, a Lua vai estar cheia e no mesmo lugar...'


No dia 22 de maio, o blog .status quo. comemorou um ano na blogosfera. Apesar de estar muito atrasada, devo dizer que nós, os leitores da Moony e do Rôh, recebemos o melhor presente quando eles resolveram colocar toda a criatividade em um blog, nos deixando compartilhar com eles o mundo maravilhoso que é o . Parabéns! - música da Xuxa como tema :) -

- Comunidade do .status quo. no Orkut.




No dia 25 de abril, a Moony indicou um selinho para o 'A máquina de escrever'. Muito obrigada! :)
Indico para: Divagações e anomalidades de uma mente ociosa (com meus mais sinceros agradecimentos ao apoio que você sempre me dá, Homero), Sophie, je'suis, Pétalas de uma Flor em Mim e Just only me ;*




E qual não foi
a triste surpresa que nós tivemos quando na última quinta-feira, 25, Michael Jackson faleceu. Sinceramente, ainda acho difícil acreditar na notícias: algumas pessoas são tão singulares no mundo que a idéia que elas são mortais parece um pouco absurda. Para mim, Michael não era o Rei do Pop: ele era o Pop em si. Neste dia, um pouco da música morreu também...




Now I believe in miracles and a miracle has happened tonight. (...) It don't matter if you're black or white.

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domingo, 24 de maio de 2009

Era só isso que eu queria da vida: uma cerveja, uma ilusão atrevida. ♪



Mais uma vez é domingo, mais uma vez volta o tédio inevitável, universal, da tarde de domingo, este estranho sentimento que se repete, em qualquer parte do mundo, o gosto de fim de festa, a tácita tomada de consciência de que amanhã vai começar tudo de novo - o demônio da rotina, os trabalhos, os problemas, as preocupações grandes e pequenas, depois desta pausa bíblica. Domingo de tarde é o momento mais triste da semana.
Este sol caindo me devolve a tantos lugares, domingo de tarde. Primeiro ao sertão do mais antigo outrora, o sino da Matriz chamando para a bênção, as moças endomingadas, os moços em linho branco, ao tempo em que o paletó e a gravata eram indispensáveis, os meninos soltando arraia (lá se chamava papagaio), jovens namorados na avenidinha, as rodas de cadeiras na calçada, os velhos senhores comentando política, na porta do bilhar, e outras moças, as místicas, as Filhas de Maria, subindo para o coro da igreja, ensaiar o Tantum ergo.
Saudosismo, coisas de quem está envelhecendo, vá lá, eu aceito, mas tinha tudo um delicioso cheiro de pureza e de lirismo. Das casas ricas, com solenidade solarenga, saíam imprevistas notas musicais que alguma moça romântica, insensível à animação da avenida, ao convite à bênção, à conversa na calçada, tirava do velho piano, e, distante, aproveitando o momento de solidão, cumpria sua paixão particular, sofrendo ausência, esperando cartas do noivo distante, tocando antigas valsas, ah bem me lembro, especialmente uma de Zequinha de Abreu, que falava nas tardes silenciosas de Lindoia. Sempre amei Lindoia, por culpa daquela valsa, e nunca vi Lindoia e tenho pena. Um dia, com a graça de Deus, eu cumpro esta promessa que me fiz menino.
Este sol morrendo me traz a esta mesma cidade afilhada de Nossa Senhora da Assunção, há muitos anos, gozando as últimas horas de folga dominical, ao tempo do colégio interno: era a hora do passeio na praia com os colegas, todos envergando a farda branca, que era o uniforme de saída - e o pequeno grupo, constituído de meninos do interior, ia assistir, deslumbrado, da Ponte Metálica, ao espetáculo gratuito do sol se afogando no mar.
Este sol crepuscular me conduz a Recife, às tristes belas tardes domingueiras do Recife - os últimos raios tirando reflexos do Capibaribe, as moças chegando para sentar no 'quem-me-quer', a ponte Buarque de Macêdo falando de holandeses, e, por entre coqueiros de Olinda distante, a silenciosa sugestão duma cantiga de antigamente, em que havia palmeiras bizarras por onde cantavam todas as cigarras, sob o pó de outro do sol.
Uma vez esta canção voltou, me acompanhou, esta canção da infância reapareceu de repente, numa tarde assim, lá em São Paulo, exatamente em Tremembé, onde um sol de amarelo queimado desaparecia no alto da serra da Cantareira, por entre palmeiras imperiais, como se fora uma despedia definitiva.
Muitas, muitas tardes de Domingo surpreendi em São Paulo, trazendo esta mesma conhecida melancolia, mais grave no centro da cidade, carregando aquele spleen que vinha talvez da nostalgia do mar, talvez da ausência da multidão habitual se comprimindo nas ruas e nos viadutos, talvez duma insuspeita eletrola de bar que intempestivamente derramava na rua um tango da minha antiga convivência e a que o cantor dava uma interpretação desgraçadamente trágica, uma terrível, dramática estória de homem traído que se vingava apunhalando o rival.
Ah, as tardes de domingo no Rio - tirante a Cinelândia, as ruas, no centro, desertas de fazer medo, a corrida da gente para a praia e, num bar de sugestivo nome, um bar de esquina, ali no Mondego, na acolhedora calçada do Mondego, diante da tulipa de chopp, vai-se ver a morte do sol, testemunhada por toda aquela despreocupada multidão de passantes, vivendo a grandeza da hora triste.
Tardes de domingo em Paris, as tardes de inverno principalmente, os bistrôs dos cais de cadeiras na calçada, protegidos por grandes gaiolas de vidro, a gente lá dentro assistindo ao desfile da humanidade agasalhada, a moça companheira, falando memórias da Bretanha, o mundo em marcha, o Sena tranqüilo, cumprindo seu papel histórico e lírico à lá fois, alguns bateaux mouches mais ousados navegando aventureiros, carregando amantes da cidade, os antigos, os novos, fazendo um passeio amorável, sob as bênçãos de Notre Dame.
Ocorreu-me principalmente uma certa tarde de domingo, no mês de abril, que já ia findando sem trazer a primavera, por que todos, impacientes, já suspiravam, cansados de inverno. Súbito um sol nervoso fez uma aparição teatral sobre a cidade - e saíram todos a festejá-lo:os jovens foram amar o sol, as crianças foram brincar ao sol, os velhos foram expor seu reumatismo ao sol. Aquele sol congraçante, inesperado, na tarde de domingo, no cenário que há de ser dos mais belos do mundo, ali no Jardim de Luxemburgo, promovendo uma alegria coletiva que deveria, em princípio, contagiar, ofendeu gravemente a minha solidão. Nunca uma tarde de domingo terá sido tão plena de graças, nunca nenhuma outra me pareceu, a mim, tão triste.
Tarde de domingo em Toulouse, em Massapê, em Bordeaux, em Santana do Acaraú, em Andorra, em Caxambu, em Lisboa, em Itanhaém ou aqui, na Praça da Escola Normal, nesta sossegada Rua Coronel Ferraz, onde agora ouço a voz do sino da Igreja do Pequeno Grande convidando para a missa - sei lá quantas tarde de domingo tenho cá nos guardados da memória, quantas sofri, quantas colecionei, são todas tristes, ah são tristes todas, as tardes de domingo, em qualquer lugar do mundo.
(Domingo à Tarde - Milton Dias in Entre a Boca da Noite e a Madrugada)

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